com Néstor Martínez Domínguez – Universidad Autónoma del Estado de México (UAEMéx)

Moderação: Ana Ferreira (CICS.NOVA) e Catarina Delaunay (CICS.NOVA)

Transmissão online: Seminário CICS.NOVA | Reunião-Participar | Microsoft Teams

Abstract: Do que é feita uma revista científica?  Análise das relações infraestruturais na produção de revistas biomédicas no México

Esta investigação examina os modos de constituição das revistas médicas e de ciências da saúde no México a partir de relações infraestruturais que articulam actores humanos e não humanos. Mobilizando o conceito de redes tecnoeconómicas (Callon, 2001), propõem-se três conceitos analíticos:
a) Convergência Editorial (CE), que designa os graus de alinhamento entre as traduções que artefactos, modalidades de financiamento, competências e textos efectuam ao longo do processo editorial;
b) Capacidade de Absorção Epistémica de Evidências (CAEe), referente aos tipos de documentos científicos que uma revista é capaz de absorver, processar e publicar;
c) Relação Infraestrutural (RI), que sintetiza a articulação entre a CE e a CAEe por forma a conectar uma revista a outras redes responsáveis pela circulação do conhecimento médico, tais como bases de dados e sistemas de avaliação.

A estratégia metodológica adoptada baseou-se na triangulação de arquivos históricos, na análise dos sítios eletrónicos das revistas, em estudos quantitativos e bibliométricos, bem como em 57 entrevistas realizadas com editores e representantes de casas editoriais. Entre os principais resultados, identificaram-se 232 títulos de revistas médicas mexicanas registados em bases de dados, dos quais apenas 109 permaneciam activos em 2024. Verificou-se, adicionalmente, que o financiamento, a contratação de serviços editoriais, a qualidade dos manuscritos e a disponibilidade de revisores constituem elementos críticos no processo de montagem dessas publicações. A partir da RI, delinearam-se quatro tipologias de revistas que evidenciam desigualdades estruturais na infraestrutura editorial do país.

O estudo examina ainda o papel das revistas como dispositivos de avaliação. No contexto mexicano, tanto o Sistema Nacional de Investigadoras e Investigadores (SNII-Secihti) como o Estímulo al Desempeño de los Investigadores en Ciencias Médicas (Secretaría de Salud) orientam a avaliação científica para revistas indexadas no JCR e no Scopus. Tal orientação configura uma condição paradoxal entre produção e avaliação: embora existam mais de uma centena de revistas médicas em actividade no México, apenas uma fracção reduzida satisfaz os critérios de indexação requeridos para influenciar os sistemas formais de avaliação científica. Esta situação suscita questionamentos relativos à composição dos sistemas de avaliação e às possibilidades efectivas de circulação do conhecimento médico no país.